domingo, 20 de maio de 2012

Pés sem rua

          Estavam todos às voltas com os sapatos guardados da minha avó que, silenciada pelo tempo, havia muito não colocava os pés na rua. Muitas coisas naquela casa estavam igualmente emburradas: a geladeira que nem o som da ferrugem fazia mais; o fogão aposentado desde que ela começou se esquecendo das receitas e por fim se esqueceu do gosto de qualquer comida, aliás, esqueceu a vontade do gosto...
          Bom, mas estavam todos às voltas com os sapatos. Os mais recentes eram os rasteiros, os últimos a verem a cara da rua. Os mais novos, pisantes ainda lustrados de loja, tinham a maioria o solado intacto. Nunca tinham visto o cheiro da vida fora do armário. Eram de salto alto como ela costumava usar nos bons tempos em que a rua ainda interessava aos pés. Entrei no quarto exatamente no momento em que todos os sapatos estavam expostos na cama para serem doados - o vermelho que ela tanto amava e combinava com a calça... vermelha! O branco liso que ela usava com a saia lápis que jamais soubera esconder a barrigada dos oito filhos; o verde musgo que eu, quando mocinha, cheguei a usar.  
        Havia dois pares pretos, um deles de verniz com pulseirinha no tornozelo, o outro fosco do tipo vai com tudo. Eram dezenas de sapatos, uns antigos, mas guardados com tanto espírito de clausura que pareciam novos em folha; outros, como disse, eram realmente estalantes de novos. 
         O quadro era desolador: enquanto uma turma analisava os pisantes encostados espalhados na cama do quarto, na sala, minha avó vestia chinelinhos, e permanecia totalmente avessa ao movimento ao lado; nada mais importava, seus pés não queriam rua. Os olhos viam a rua por obrigação, pois a janela era aberta diariamente para que a falta de ar não a sufocasse de vez. E, mesmo sentada na salinha, mesmo se não quisesse ver o mundo, o mundo conseguia vê-la: da fresta da janela, a rua a via, sentadinha, de chinelinho e meias em pleno verão abafado.
         Fiquei me lembrando das tantas vezes em que vi minha avó empombada naqueles saltos imensos, toda combinada e cheia de bijus, colares, pulseiras, anelões... Cabelos montados, blusas de seda. Era tão flagrante o contraste que precisei espanar a lembrança com um leque para não me entristecer. E ali estavam todos diante dos sapatos que seriam doados. Duas portas inteiras do guarda-roupas dedicadas à sapataria. Fiquei pensando na importância que é ter pés de rua. 
         Quando a mulher perde o gosto de calçar seus sapatos e mostrar ao mundo é porque alguma coisa de muito errado está acontecendo dentro dela. Pensei também em quando foi a primeira vez em que a falta de vontade de ter pés na rua sobressaltou minha avó. Foi talvez ali o começo de todo o silêncio.