quarta-feira, 1 de agosto de 2012
domingo, 20 de maio de 2012
Pés sem rua
Estavam todos às voltas com os sapatos guardados da minha avó que, silenciada pelo tempo, havia muito não colocava os pés na rua. Muitas coisas naquela casa estavam igualmente emburradas: a geladeira que nem o som da ferrugem fazia mais; o fogão aposentado desde que ela começou se esquecendo das receitas e por fim se esqueceu do gosto de qualquer comida, aliás, esqueceu a vontade do gosto...
Bom, mas estavam todos às voltas com os sapatos. Os mais recentes eram os rasteiros, os últimos a verem a cara da rua. Os mais novos, pisantes ainda lustrados de loja, tinham a maioria o solado intacto. Nunca tinham visto o cheiro da vida fora do armário. Eram de salto alto como ela costumava usar nos bons tempos em que a rua ainda interessava aos pés. Entrei no quarto exatamente no momento em que todos os sapatos estavam expostos na cama para serem doados - o vermelho que ela tanto amava e combinava com a calça... vermelha! O branco liso que ela usava com a saia lápis que jamais soubera esconder a barrigada dos oito filhos; o verde musgo que eu, quando mocinha, cheguei a usar.
Havia dois pares pretos, um deles de verniz com pulseirinha no tornozelo, o outro fosco do tipo vai com tudo. Eram dezenas de sapatos, uns antigos, mas guardados com tanto espírito de clausura que pareciam novos em folha; outros, como disse, eram realmente estalantes de novos.
O quadro era desolador: enquanto uma turma analisava os pisantes encostados espalhados na cama do quarto, na sala, minha avó vestia chinelinhos, e permanecia totalmente avessa ao movimento ao lado; nada mais importava, seus pés não queriam rua. Os olhos viam a rua por obrigação, pois a janela era aberta diariamente para que a falta de ar não a sufocasse de vez. E, mesmo sentada na salinha, mesmo se não quisesse ver o mundo, o mundo conseguia vê-la: da fresta da janela, a rua a via, sentadinha, de chinelinho e meias em pleno verão abafado.
Fiquei me lembrando das tantas vezes em que vi minha avó empombada naqueles saltos imensos, toda combinada e cheia de bijus, colares, pulseiras, anelões... Cabelos montados, blusas de seda. Era tão flagrante o contraste que precisei espanar a lembrança com um leque para não me entristecer. E ali estavam todos diante dos sapatos que seriam doados. Duas portas inteiras do guarda-roupas dedicadas à sapataria. Fiquei pensando na importância que é ter pés de rua.
Quando a mulher perde o gosto de calçar seus sapatos e mostrar ao mundo é porque alguma coisa de muito errado está acontecendo dentro dela. Pensei também em quando foi a primeira vez em que a falta de vontade de ter pés na rua sobressaltou minha avó. Foi talvez ali o começo de todo o silêncio.
Bom, mas estavam todos às voltas com os sapatos. Os mais recentes eram os rasteiros, os últimos a verem a cara da rua. Os mais novos, pisantes ainda lustrados de loja, tinham a maioria o solado intacto. Nunca tinham visto o cheiro da vida fora do armário. Eram de salto alto como ela costumava usar nos bons tempos em que a rua ainda interessava aos pés. Entrei no quarto exatamente no momento em que todos os sapatos estavam expostos na cama para serem doados - o vermelho que ela tanto amava e combinava com a calça... vermelha! O branco liso que ela usava com a saia lápis que jamais soubera esconder a barrigada dos oito filhos; o verde musgo que eu, quando mocinha, cheguei a usar.
Havia dois pares pretos, um deles de verniz com pulseirinha no tornozelo, o outro fosco do tipo vai com tudo. Eram dezenas de sapatos, uns antigos, mas guardados com tanto espírito de clausura que pareciam novos em folha; outros, como disse, eram realmente estalantes de novos.
O quadro era desolador: enquanto uma turma analisava os pisantes encostados espalhados na cama do quarto, na sala, minha avó vestia chinelinhos, e permanecia totalmente avessa ao movimento ao lado; nada mais importava, seus pés não queriam rua. Os olhos viam a rua por obrigação, pois a janela era aberta diariamente para que a falta de ar não a sufocasse de vez. E, mesmo sentada na salinha, mesmo se não quisesse ver o mundo, o mundo conseguia vê-la: da fresta da janela, a rua a via, sentadinha, de chinelinho e meias em pleno verão abafado.
Fiquei me lembrando das tantas vezes em que vi minha avó empombada naqueles saltos imensos, toda combinada e cheia de bijus, colares, pulseiras, anelões... Cabelos montados, blusas de seda. Era tão flagrante o contraste que precisei espanar a lembrança com um leque para não me entristecer. E ali estavam todos diante dos sapatos que seriam doados. Duas portas inteiras do guarda-roupas dedicadas à sapataria. Fiquei pensando na importância que é ter pés de rua.
Quando a mulher perde o gosto de calçar seus sapatos e mostrar ao mundo é porque alguma coisa de muito errado está acontecendo dentro dela. Pensei também em quando foi a primeira vez em que a falta de vontade de ter pés na rua sobressaltou minha avó. Foi talvez ali o começo de todo o silêncio.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Silêncio!
Quem já trabalhou em redação sabe muito bem que esperar silêncio para escrever é o mesmo que pedir demissão. Sempre escrevi do jeito que dava, às pressas, com barulho, papo, fofoca, televisão, enfim, uma verdadeira orquestra. De uns tempos para cá, porém, com a vinda dos filhos e o meu feliz sumiço das redações, tenho notado que preciso cada vez mais do silêncio. Se o silêncio estiver no cenário de uma noite com grilos melhor ainda. Quer dizer, os grilos são para enfeitar o cenário desta cena; eles não são tão necessários assim.
O barulho e a confusão de crianças que pedem, brigam, lutam por espaços e afeto é tão imenso, que eu às vezes preciso implorar para que elas se recolham ao sono. O silêncio chega, então. É quando eu quase acredito que sou uma ótima mãe e posso ouvir o que tenho a dizer. No meio da algazarra, eu grito e não me escuto; parece que fiquei oca no momento em que a maternidade me requisita todos os ouvidos e sentidos. Ah, elas dormem e eu me escuto enfim...
Há dias em que dentro da concha não consigo ouvir o barulho do mar. É quando estou cansada demais para ouvir o que tenho a dizer, e o melhor a fazer é aproveitar o silêncio de outra forma: escrevendo sem escrever, ou seja, deixar que o pensamento pense sem a obrigação de virar papel.Ando mesmo cansada, mas acho que é de emoção. Não sei bem... Acho que preciso de mais noites silenciosas para ouvir o que meu cansaço está querendo me dizer. Desconfio que seja uma transformação que vai suspender meus pés um tanto acima do chão. Depois eu conto mais.
O barulho e a confusão de crianças que pedem, brigam, lutam por espaços e afeto é tão imenso, que eu às vezes preciso implorar para que elas se recolham ao sono. O silêncio chega, então. É quando eu quase acredito que sou uma ótima mãe e posso ouvir o que tenho a dizer. No meio da algazarra, eu grito e não me escuto; parece que fiquei oca no momento em que a maternidade me requisita todos os ouvidos e sentidos. Ah, elas dormem e eu me escuto enfim...
Há dias em que dentro da concha não consigo ouvir o barulho do mar. É quando estou cansada demais para ouvir o que tenho a dizer, e o melhor a fazer é aproveitar o silêncio de outra forma: escrevendo sem escrever, ou seja, deixar que o pensamento pense sem a obrigação de virar papel.Ando mesmo cansada, mas acho que é de emoção. Não sei bem... Acho que preciso de mais noites silenciosas para ouvir o que meu cansaço está querendo me dizer. Desconfio que seja uma transformação que vai suspender meus pés um tanto acima do chão. Depois eu conto mais.
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Não grita com Anita (to be continued...)
Um mistério morava naquela casa. E todos perguntavam: o que acontecia dentro de Anita - ou fora dela - para de uma hora para outra ela acordar como se estivesse do avesso?
Era um disse-me-disse daqueles. Olhares se esbugalhavam, e algumas pessoas, principalmente crianças, quase tropeçavam e caíam na rua quando Anita passava do avesso – não viam o chão, só ficavam olhando para a cara da menina.
Alguém há de perguntar: e os pais de Anita, onde estavam que não procuravam um médico para resolver o tão misterioso problema do avesso da menina? Vamos com calma. Mistérios não se resolvem do dia para a noite. De qualquer forma, era do dia para a noite que tudo se transformava.
Alguém também há de querer saber: e Anita, quando se olhava no espelho e via seu próprio horror, o que dizia, o que pensava e, principalmente, o que sentia?
domingo, 16 de outubro de 2011
Acordar para dentro
Hoje ouvi uma frase que me deixou encantada: lembrar do sonho é acordar para dentro. Independentemente do que a expressão quer dizer em termos científicos, relacionando-se ao período em que o pensamento se prepara para despertar, logo fiz conexões com a vida na vertical, do lado de cá do sono. E refleti sobre a pergunta: com o que sonhamos? A gente quer tanta coisa... Como aquela criança que tem tudo no dia 12 de outubro; acaba não pedindo nada ou pedindo tudo ao mesmo tempo.
Então, acordar para dentro é conhecer/entrever o que se quer - com o que sonhamos? O que nossa alma mais deseja? Muitas vezes, os sonhos são mascarados por tantos excessos ou confundidos com tantos disfarces que, no íntimo, se alguém perguntar a verdade corremos o risco de mentir por pura falta de prática em seremos absolutamente autênticos com a gente mesmo.
Fiquei pensando se eu sei com exatidão tudo o que mais quero/sonho na vida, além do amplo e genérico ser feliz. Talvez eu tenha alguns sonhos dublados que um dia irão ganhar clareza e contornos próximo a um despertar. Eu, que me sinto tão dona de mim e dos meus princípios, talvez não tenha ainda acordado por dentro totalmente. Acordar para dentro, quanta reflexão cabe neste despertar profundo. Não existe o sono profundo? Pois existe também um despertar profundo, que é, acho, quando a gente decide acordar. Por dentro.
Com o que sonha a sua alma?
Então, acordar para dentro é conhecer/entrever o que se quer - com o que sonhamos? O que nossa alma mais deseja? Muitas vezes, os sonhos são mascarados por tantos excessos ou confundidos com tantos disfarces que, no íntimo, se alguém perguntar a verdade corremos o risco de mentir por pura falta de prática em seremos absolutamente autênticos com a gente mesmo.
Fiquei pensando se eu sei com exatidão tudo o que mais quero/sonho na vida, além do amplo e genérico ser feliz. Talvez eu tenha alguns sonhos dublados que um dia irão ganhar clareza e contornos próximo a um despertar. Eu, que me sinto tão dona de mim e dos meus princípios, talvez não tenha ainda acordado por dentro totalmente. Acordar para dentro, quanta reflexão cabe neste despertar profundo. Não existe o sono profundo? Pois existe também um despertar profundo, que é, acho, quando a gente decide acordar. Por dentro.
Com o que sonha a sua alma?
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Mania de guardar
Hoje comprei mais um porta-joias. O curioso é que nem tenho muita joia. Não posso ver uma caixinha cheia de divisões que logo me antecipo para comprar o que não preciso e guardar o que nem tenho de sobra para guardar tanto. É mania. Mania de guardar, de organizar tudo em potes, caixas e malinhas - e nem sou tão organizada assim. Daí me lembrei de que esta é uma mania antiga. Quando eu era pequena, devia ter uns 5 anos, ficava horas organizando minhas coisas em pequenas malas que cabiam na mão. Aquilo era um ritual. Eu secretamente achava que tudo o que era importante para mim tinha de ser guardado de forma que fosse fácil ser carregado quando a casa pegasse fogo e eu precisasse fugir correndo. Eu não pensava "se" a casa pegasse fogo; eu tinha "certeza" de que pegaria fogo. A coisa era séria.
Agora elaboro tudo isso e penso: a mania de guardar é medo de perder. Não que eu seja muito ligada às coisas, mas a sensação de que meu chão pode se abrir de repente ou de que as paredes que me abraçam podem se esfarelar do dia para noite é um pensamento segundo que lateja de vez em quando. Claro que não sou neurótica e tudo isso fica lá no fundos - meu porão secreto que meu blog vai abrindo pouco a pouco.
Minhas caixinhas são lindas. Esta nova é uma mistura de caixa e mala, com chave e tudo. Dá pra guardar as poucas joias em divisões que separam os brincos e os colares, tudo em seu lugar. Adoro cada coisa em seu lugar, mas minhas ideias são tão embaralhadas e meu pensamento nem é tão ordenado assim... Nossa, sou uma contradição só.
Agora elaboro tudo isso e penso: a mania de guardar é medo de perder. Não que eu seja muito ligada às coisas, mas a sensação de que meu chão pode se abrir de repente ou de que as paredes que me abraçam podem se esfarelar do dia para noite é um pensamento segundo que lateja de vez em quando. Claro que não sou neurótica e tudo isso fica lá no fundos - meu porão secreto que meu blog vai abrindo pouco a pouco.
Minhas caixinhas são lindas. Esta nova é uma mistura de caixa e mala, com chave e tudo. Dá pra guardar as poucas joias em divisões que separam os brincos e os colares, tudo em seu lugar. Adoro cada coisa em seu lugar, mas minhas ideias são tão embaralhadas e meu pensamento nem é tão ordenado assim... Nossa, sou uma contradição só.
domingo, 24 de julho de 2011
Medo do escuro
Até eu, que hoje me acho tão grande e forte, não escapei. Tinha medo de quando a luz do quarto era desligada e abruptamente todos os adultos da casa (só eram dois, meu pai e minha mãe) sumiam na escuridão. Meu irmão ainda não existia, e eu não tinha com quem dividir aquele medo enorme. Antes de gritar para que o primeiro adulto viesse ao meu socorro, eu me atemorizava com os bonecos do quarto que se agigantavam diante de mim.Como a gente esquece facilmente os medos de criança. Quantas vezes sou incapaz de compreender o medo da minha filha. No fundo eu acho que ela precisa ser mais forte e destemida do que eu fui. E até do que eu sou. Ohando assim para trás, vejo que tenho sido quase nada tolerante com os medos que já venci, mas que outros ainda não venceram.Venci? Será mesmo? Não sei. Eu não seria capaz de domir sem medo em um lugar escuro sem nenhum rosto amigo por perto. Deixa eu explicar melhor: estou tão acostumada a ter minhas filhas ao meu redor, cuidando do medo delas, que não tenho prestado muita atenção no que me daria medo hoje, isto é, se eu ainda teria medo do escuro em condições pouco simpáticas - uma fazenda no meio do nada, por exemplo.Ah, mas é tão pouco provável flagrar esta que vos escreve em uma fazenda e, além do mais, em uma fazenda no meio do nada... melhor pensar em outro cenário. Talvez eu esteja precisando fazer um inventário dos meus medos de agora e checar até que ponto sou grande e forte como penso. Que nada. A filha que tem medo do escuro, de apenas 5 anos, só não embarca em uma montanha-russa porque a mãe, no caso eu, medrosa, não permite.Sim, meu guardatório de confissões: nunca andei de montanha-russa de verdade, a não ser aquelas bem pequenas. Não tenho medo. Tenho pavor.
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