sábado, 27 de julho de 2013

Novos "aires", novas ideias

       Gosto de escrever sobre os espaços, mas não especialmente sobre o que eu vejo e sim o efeito emocional que um determinado espaço cria ao redor do meu próprio espaço físico. Talvez seja por este motivo que não sou uma viajante contumaz. Não gosto muito de sair do meu chão de todo o dia e só com algum custo me elaboro para uma viagem de maior fôlego. Tenho um pouco de medo do "efeito" que um determinado espaço vai gerar em mim... Há boas razões para este temor. Logo vocês saberão, porque transformei um destes efeitos físicos em ficção: meu próximo romance, que será lançado no ano que vem. 

        Ocorre que às vezes a descoberta de um novo lugar é feliz, radiante, e me faz querer pertencer a outros cenários. Aconteceu na Argentina e, mais especialmente, na Patagônia. Eu já conhecia Buenos Aires, mas tinha feito uma viagem muito rápida há alguns anos e não tive tempo de sentir os efeitos da paisagem nem beber o vinho que eu queria, conversar com tantas pessoas como fiz desta vez nem comer da carne, do pão, do queijo certo... Pude agora fazer uma viagem mais longa e, então, conhecer restaurantes e bares muito argentinos, livrarias, museus, recantos... Mais do que tudo: amanheci alguns dias na Patagônia e posso dizer: aquilo não é um lugar, mas uma experiência. 

       Voltei tão cheia de vinhos como de ideias, projetos e histórias. É como se o efeito de uma redescoberta argentina continuasse acontecendo e eu continuasse acordando e adormecendo na Patagônia todos os dias. Por um bom tempo será assim.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Este é meu segundo livro infantil. Já lancei em São Paulo e agora será a vez do Rio de Janeiro. Lá na Livraria Blooks, que fica dentro do Arteplex, na Praia de Botafogo. Um lugar lindo, uma livraria charmosa, onde tem um espaço infantil para contação de histórias e muito mais. Vamos fazer um concurso literário! Apareçam: a partir das 15 horas.


quinta-feira, 30 de maio de 2013

Meu ponto G

         Outro dia fui ao dentista com uma blusa nova. De malha, bege. Só que me esqueci de tirar o selo G (de grande, de gigante, de gorrrrda) que vinha preso justamente logo acima do peito. Fosse porque o G era bem grande mesmo e sobressaía na blusa clara, fosse porque o dentista estava nada discretamente de olho no meu peito, o fato é que ele, o dentista, me avisou da existência do tal ponto G cravado ali, no meu peito.  Eu, em vez de me sentir invadida no meu mais profundo G por uma pessoa que mal conheço, me senti pequena e indefesa diante da grande gafe. Por que motivo o dentista olhava meus peitos? Estaria minimamente interessado em mim? (Devo esquecer a suspeita erótica. O ridículo de se achar atraente por um homem jovem é quase um surto de Alzheimer.)
         O problema não é mundo nem são as pessoas. Eu é que preciso criar um habitat agradável para mim – ao meu redor só cabe eu + eu. Ocupo um espaço tão imenso que não vejo mais ninguém; se me deixei levar pelo amante amassado foi porque também ele me nublava a visão. Nossa, sou de repente uma gorda pensante. Como, em tantos anos de análise, não pensei nisso antes? Vou querer meu dinheiro de volta. Estou fazendo o trabalho sujo do analista. Não é ele quem me deve respostas? Saio sempre de lá com as mãos cheias de mais perguntas, que vantagem há nisso? Logo agora que meu dinheiro é escasso, aposentada, não dá para pagar um spa e ir ao analista ao mesmo tempo. É muito luxo para uma gorda sozinha como eu. 
        Estou a ponto de preferir o spa e para lá despejar meus quilos a mais, viver um tempo de muita fome, comer mato e me encher de gases – no fim, vou chegar ao consultório resoluta para pedir o que ele, o analista, me deve. Sim, porque alguém tem que me dever alguma coisa neste mundo. Me assanho quando penso que o spa possa ser um lugar cheio de gente nova para conhecer. 
       
          Se eu me distrair com gente, quem sabe me esqueço da fome, faço que nem vejo mais a geladeira com a qual estou cada vez mais parecida, aliás.  Por afinidade de corpos, nós afinamos a amizade – quando eu afilar, não vou mais querer tanta conversa fiada com a geladeira. Tão pouco vou querer graça com homens amassados quando eu me desembolar de mim. Esquecer-me da minha pior parte; esquecer o tanto de ruim que ele foi (ainda é) em mim. Esquecer-te de mim.

(do romance Esquecer-te de mim, 2011)


quarta-feira, 15 de maio de 2013


Meu novo infantil Nina e lamparina (Editora DSOP), foi lançado no dia 19 de maio,
na Livraria da Vila, em São Paulo. O livro é uma reflexão sobre o medo do escuro e a construção das ferramentas individuais para clarear o pensamento, o caminho e a coragem.

domingo, 12 de maio de 2013

Nina e a lamparina


Quem está dentro dos sonhos da noite pode, de repente, encontrar-se dentro dos pesadelos da escuridão... Foi o que aconteceu com a Nina, personagem deste meu segundo infantil. Quer saber mais? A gente vai estar na Livraria da Vila, São Paulo, no dia 19 de maio, às 15h. Por enquanto, é saber: Nina e a lamparina, editora DSOP, ilustrações de Cecília Murgel.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

sábado, 9 de março de 2013

LOW SKY
(trecho)


       Não era frio de neve. Se a neve fosse frequente, os cenários se sentiriam habitados. A neve povoa: as crianças aparecem para fazer bolas, os próprios adultos brincam de fazer pegadas de urso no chão alto. Mas e o frio sem neve? É deserto sem praia, calor sem horizonte. Reparando bem, o céu de lá é mais baixo, parece que vai esmagar a gente - low sky, low sky... Talvez não seja nada disso, eu é que me apequenava - ou sumia? - em meus apocalipses diários.
      O acinzentado daquela estação e de todas as outras quase inteiramente iguais transformava manhãs em tardes e tardes em noite. Todos os dias eram iguais, onde me encontrar se eu tinha a impressão de que saía de um ponto e não parecia ter tirado os pés do chão na direção de outro ponto? Nada amanhece verdadeiramente em lugares assim. A luz não entra pela frestas, tão fina e transparente que se dissolve antes de ter força para entrar nos lares, que permaneceriam escuros não fossem as lâmpadas.



domingo, 3 de março de 2013

Um trecho desta história está em http://www.revistapessoa.com/2012/06/centopeia/






       Eis uma família desnorteada: mãe, pai, irmã, cachorro e periquito - o cachorro desmaiou, o periquito enlouqueceu depois de falar todo um dicionário, a mãe inundou o carpete de tanto choro; o pai dava voltas e voltas ao redor de si mesmo e se enroscava no fio do telefone, enquanto tentava ligar para o médico, doutor Jocreu. E a vizinha? Desmaiou em cima do cachorro!
       Que dia mais louco foi aquele! Ninguém podia explicar como uma menina de repente vira centopeia. A irmã mais velha, que se chamava Mariana, a única da casa que não costuma chorar simplesmente porque meninas viram centopeias, fingia que nada tinha acontecido. Olha a cara fingida de não-espanto dela! E assim tentava animar a irmã esparramada na cama:

- Pense no lado bom de ter tantos pés: você poderá usar todos os seus pares de sapato ao mesmo tempo!

sábado, 2 de março de 2013

O primeiro romance: Esquecer-te de mim

          Meu depois está tão longe de mim, que nem responde quando eu chamo. Só não está mais longe de mim do que eu mesma. Faz um bom tempo que não me encontro. No meio dos destroços, onde me incluo destroçada, o palhaço de brinquedo é ameaça macabra; pode me dar o bote a qualquer momento. Fico só olhando. Ele me olha de volta. Vamos ver quem pisca primeiro.
 – Ai, que susto! – dou um berro, mas logo me afino. Silêncio! – contenho meus excessos. A vizinha Margareth pode ouvir, aparecer e me convidar para jantar na casa dela. Gritei porque meu pé ficou enroscado na canela e deu um nó. Quase me espatifo, dentes no chão.
  Alguém já disse para ter medo da tristeza. Não é um sentimento morto, como se imagina. A tristeza é um ser vivo: tem pernas e braços enormes, e, quando chega perto, me embrulha para dentro de uma cova sem deixar vestígio de gente do lado de fora. Sem perceber, lá vou eu, nos braços da tristeza para lugar nenhum.  Meu chão hoje balança. A cadeira onde me sento tem os pés fincados na beiradinha de um abismo - uma leve mexida e despenco. 
Tanta história amassada dentro das caixas de mudança que adio o momento de abri-las.  Quando eu começar a desembrulhar tudo, nem sei. Medo de tocar nas roupas e nos objetos. Parecem vivos também. Vai que uma das camisas me enforca no fingimento de um abraço de pêsames?
Chegaram ao final da tarde as caixas. Anoiteço junto. E me desembrulho. Os pedaços do tempo estão esmigalhados no que se aperta ali dentro. O resto se esparrama em frangalhos por todo um quarto de despejo.
A casa está tomada por insetos. Baratas vermelhas com bolinhas brancas nas costas, joaninhas transgênicas; pernilongos gigantes, mas bobos, que não voam e se deixam matar com facilidade.  E ainda lacraias sobem e descem pelos armários. Os bichos se misturam às roupas e aí acontece: pego uma peça e, de repente, esmago um deles. Será que todos eles podem me ver ou só eu os vejo? Se a barata não tiver olhos de ver quem delira sou eu.
https://soundcloud.com/stream

http://www.youtube.com/watch?v=qqTICTXmSLM

Livro de resenhas publicadas na Revista Pessoa: Delicados Abismos


        Pescar em Clarice Lispector o título desta seleção de resenhas/sugestões de leitura é confirmar a óbvia contemporaneidade da autora de A paixão segundo GH. Não existiria ainda uma nova Clarice – certo? Sim, mas não é da conta do tempo de agora pensar em perspectiva; quais se salvarão em genialidade dentro destes autores aqui reunidos, somados a tantos outros e que apenas por uma questão de timing ficaram de fora, só o tempo dirá. Por enquanto, o que nos compete é pensar no que estes autores do hoje estão fazendo para alargar o pensamento e a palavra; em que medida, e por que motivo, são bons contemporâneos e merecem ser conhecidos, lidos, apreciados e estudados.
         Delicado + abismo. Clarice produz um choque interessante, juntando ideias que não combinam em nada; muito pelo contrário: estranham-se a ponto de arranharem-se. Estas palavras são absolutamente apropriadas para descrever as profundezas a que a autora se lançou. É delicada a sua prosa – folha de outono tocando os cílios como um milagre, acácias e sombras se balançando fora das janelas em manhã de um sábado... são algumas imagens usadas por Clarice em seus textos. Um exemplo: “Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza”, está em um dos fragmentos de A descoberta do mundo. Contudo, existe o abismo. E é nele que a escrita de Clarice se joga com força e brutalidade em praticamente tudo. A “desordem” de que fala a citação acima é exatamente o caos, o estado de não aceitação de uma situação (linguística, especialmente) habitual.
         Clarice desparafusa o cotidiano, a pontuação e os elos que usualmente fazem as palavras combinarem entre si. Para atravessar a noite insone e sem fantasmas (inútil querer povoá-la, como as noites de Berna, na crônica “Noite na montanha”), não só é preciso coragem, como é urgente romper os velhos laços (de família?) e lançar-se no abismo – o ponto de partida de uma escrita tensa, como a corda esticada até o limite; mais um pouco e tudo se rompe. Mais um passo, e eis a queda fatal.
        Penso que boa parte da literatura de hoje deve-se muito ao “delicado abismo” de Clarice Lispector. A delicadeza a que me refiro não é, naturalmente, a delicadeza ingênua que aflora sem os sobressaltos, claro que não, mas sim uma delicadeza de espuma (usando a feliz metáfora de João Carrascoza) que faz pensar em um momento mínimo de tranquilidade, um instante-já em que a palavra consegue flutuar, mas que logo será desmanchado porque, todos sabem, a vida é carvão (Ana Paula Maia). É preciso, então, chacoalhar o pensamento e os gestos, pois, de repente, tudo se incendeia; tudo se espatifa e descarrila; tudo cai (diário de nossas quedas, bem o conhece Michel Laub) e o que era doce vira (vermelho) amargo (Bartolomeu já sabia disso).

domingo, 9 de setembro de 2012

Revelações

       Evito começar qualquer texto de lembrança com "quando eu era pequena". Acho enjoativo. Aprendi isso com as minhas filhas que ficam desanimadas sempre que eu conto alguma história com este início. Então:
        Na minha casa de infância, tinha um quarto de fundos onde funcionava o laboratório de fotografia do meu pai. Aos sábados, eu e ele costumávamos dormir tarde, enquanto o resto da casa desmoronava cedo. Eu ficava desenhando, enquanto ele se trancafiava naquele quarto revelando as fotos que havia tirado ao longo do dia. Eu ficava de tocaia, esperando para ver o resultado. Corria para os fundos assim que a porta se abria rapidamente e perguntava:
       - Tem alguma coisa pronta?
       Ele, sem nenhuma pressa, nem muita leitura da minha pressa, respondia:
        - Não dá pra ver nada ainda, só amanhã.
         E fechava de novo.
         Eu voltava para meus desenhos, imaginando quais teriam sido os cliques do dia, louca para ver alguma das fotos; pensava em quem eram as pessoas, os rostos que nasceriam daquelas águas com cheiro ruim de revelador.
         A batalha entre eu-pequena-desenhista e a demora do artista que se arrastava pelas madrugadas encontrando o ponto certo para cada obra era, enfim, perdida - eu, vencida pelo cansaço, recolhia-me para a noite do quarto, enquanto a noite no quartinho dos fundos só terminava de manhã.
          Assim que eu me levantava, via espalhadas pela sala do apartamentinho as fotos da noite - paredes, sofás, chão, tudo era tomado pelas fotos reveladas que, molhadas, ficavam secando por todo um domingo. Não era dia de sentarmos em nenhuma das cadeiras. Os móveis e toda a sala pertenciam à arte.
E eu ficava horas olhando tudo aquilo e fazia perguntas sobre cada uma daquelas fotos, queria saber a vida por trás dos personagens. De alguma forma, o varal que se tornava a sala da minha casa onde as fotos secavam era uma escola de fotografia para quem nem sabia desenhar.
        Não virei fotógrafa, mas acho que boa parte do que escrevo está impregnada de imagens, pois gosto de visualizar uma cena antes de criá-la em palavras. Um dia, adulta, eu disse ao meu pai (que nunca-jamais-em tempo algum me emprestou suas máquinas profissionais):
       - Eu queria tanto aprender a fotografar!
Ele me respondeu, sem nenhuma pressa:
       - Você já sabe. Só que fotografa com poesia.

domingo, 20 de maio de 2012

Pés sem rua

          Estavam todos às voltas com os sapatos guardados da minha avó que, silenciada pelo tempo, havia muito não colocava os pés na rua. Muitas coisas naquela casa estavam igualmente emburradas: a geladeira que nem o som da ferrugem fazia mais; o fogão aposentado desde que ela começou se esquecendo das receitas e por fim se esqueceu do gosto de qualquer comida, aliás, esqueceu a vontade do gosto...
          Bom, mas estavam todos às voltas com os sapatos. Os mais recentes eram os rasteiros, os últimos a verem a cara da rua. Os mais novos, pisantes ainda lustrados de loja, tinham a maioria o solado intacto. Nunca tinham visto o cheiro da vida fora do armário. Eram de salto alto como ela costumava usar nos bons tempos em que a rua ainda interessava aos pés. Entrei no quarto exatamente no momento em que todos os sapatos estavam expostos na cama para serem doados - o vermelho que ela tanto amava e combinava com a calça... vermelha! O branco liso que ela usava com a saia lápis que jamais soubera esconder a barrigada dos oito filhos; o verde musgo que eu, quando mocinha, cheguei a usar.  
        Havia dois pares pretos, um deles de verniz com pulseirinha no tornozelo, o outro fosco do tipo vai com tudo. Eram dezenas de sapatos, uns antigos, mas guardados com tanto espírito de clausura que pareciam novos em folha; outros, como disse, eram realmente estalantes de novos. 
         O quadro era desolador: enquanto uma turma analisava os pisantes encostados espalhados na cama do quarto, na sala, minha avó vestia chinelinhos, e permanecia totalmente avessa ao movimento ao lado; nada mais importava, seus pés não queriam rua. Os olhos viam a rua por obrigação, pois a janela era aberta diariamente para que a falta de ar não a sufocasse de vez. E, mesmo sentada na salinha, mesmo se não quisesse ver o mundo, o mundo conseguia vê-la: da fresta da janela, a rua a via, sentadinha, de chinelinho e meias em pleno verão abafado.
         Fiquei me lembrando das tantas vezes em que vi minha avó empombada naqueles saltos imensos, toda combinada e cheia de bijus, colares, pulseiras, anelões... Cabelos montados, blusas de seda. Era tão flagrante o contraste que precisei espanar a lembrança com um leque para não me entristecer. E ali estavam todos diante dos sapatos que seriam doados. Duas portas inteiras do guarda-roupas dedicadas à sapataria. Fiquei pensando na importância que é ter pés de rua. 
         Quando a mulher perde o gosto de calçar seus sapatos e mostrar ao mundo é porque alguma coisa de muito errado está acontecendo dentro dela. Pensei também em quando foi a primeira vez em que a falta de vontade de ter pés na rua sobressaltou minha avó. Foi talvez ali o começo de todo o silêncio.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Silêncio!

          Quem já trabalhou em redação sabe muito bem que esperar silêncio para escrever é o mesmo que pedir demissão. Sempre escrevi do jeito que dava, às pressas, com barulho, papo, fofoca, televisão, enfim, uma verdadeira orquestra. De uns tempos para cá, porém, com a vinda dos filhos e o meu feliz sumiço das redações, tenho notado que preciso cada vez mais do silêncio. Se o silêncio estiver no cenário de uma noite com grilos melhor ainda. Quer dizer, os grilos são para enfeitar o cenário desta cena; eles não são tão necessários assim.
            O barulho e a confusão de crianças que pedem, brigam, lutam por espaços e afeto é tão imenso, que eu às vezes preciso implorar para que elas se recolham ao sono. O silêncio chega, então. É quando eu quase acredito que sou uma ótima mãe e posso ouvir o que tenho a dizer. No meio da algazarra, eu grito e não me escuto; parece que fiquei oca no momento em que a maternidade me requisita todos os ouvidos e sentidos. Ah, elas dormem e eu me escuto enfim...
           Há dias em que dentro da concha não consigo ouvir o barulho do mar. É quando estou cansada demais para ouvir o que tenho a dizer, e o melhor a fazer é aproveitar o silêncio de outra forma: escrevendo sem escrever, ou seja, deixar que o pensamento pense sem a obrigação de virar papel.Ando mesmo cansada, mas acho que é de emoção. Não sei bem... Acho que preciso de mais noites silenciosas para ouvir o que meu cansaço está querendo me dizer. Desconfio que seja uma transformação que vai suspender meus pés um tanto acima do chão. Depois eu conto mais.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Não grita com Anita (to be continued...)

Era assim: de quando em quando, Anita acordava estranha: os olhos iam parar perto da orelha, a orelha a gente só encontrava perto da nuca, e a boca descia para o queixo - quase um monstro ela ficava. Anita era vaidosa à beça e gostava de espelhos. Nenhum deles, porém, era capaz de corrigir o reflexo daquela repentina transformação.

Um mistério morava naquela casa. E todos perguntavam: o que acontecia dentro de Anita - ou fora dela - para de uma hora para outra ela acordar como se estivesse do avesso?

Era um disse-me-disse daqueles. Olhares se esbugalhavam, e algumas pessoas, principalmente crianças, quase tropeçavam e caíam na rua quando Anita passava do avesso – não viam o chão, só ficavam olhando para a cara da menina.

Alguém há de perguntar: e os pais de Anita, onde estavam que não procuravam um médico para resolver o tão misterioso problema do avesso da menina? Vamos com calma. Mistérios não se resolvem do dia para a noite. De qualquer forma, era do dia para a noite que tudo se transformava.


Alguém também há de querer saber: e Anita, quando se olhava no espelho e via seu próprio horror, o que dizia, o que pensava e, principalmente, o que sentia?

domingo, 16 de outubro de 2011

Acordar para dentro

Hoje ouvi uma frase que me deixou encantada: lembrar do sonho é acordar para dentro. Independentemente do que a expressão quer dizer em termos científicos, relacionando-se ao período em que o pensamento se prepara para despertar, logo fiz conexões com a vida na vertical, do lado de cá do sono. E refleti sobre a pergunta: com o que sonhamos? A gente quer tanta coisa... Como aquela criança que tem tudo no dia 12 de outubro; acaba não pedindo nada ou pedindo tudo ao mesmo tempo.

Então, acordar para dentro é conhecer/entrever o que se quer - com o que sonhamos? O que nossa alma mais deseja? Muitas vezes, os sonhos são mascarados por tantos excessos ou confundidos com tantos disfarces que, no íntimo, se alguém perguntar a verdade corremos o risco de mentir por pura falta de prática em seremos absolutamente autênticos com a gente mesmo.


Fiquei pensando se eu sei com exatidão tudo o que mais quero/sonho na vida, além do amplo e genérico ser feliz. Talvez eu tenha alguns sonhos dublados que um dia irão ganhar clareza e contornos próximo a um despertar. Eu, que me sinto tão dona de mim e dos meus princípios, talvez não tenha ainda acordado por dentro totalmente. Acordar para dentro, quanta reflexão cabe neste despertar profundo. Não existe o sono profundo? Pois existe também um despertar profundo, que é, acho, quando a gente decide acordar. Por dentro.


Com o que sonha a sua alma?

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Mania de guardar

Hoje comprei mais um porta-joias.  O curioso é que nem tenho muita joia. Não posso ver uma caixinha cheia de divisões que logo me antecipo para comprar o que não preciso e guardar o que nem tenho de sobra para guardar tanto.  É mania. Mania de guardar, de organizar tudo em potes, caixas e malinhas - e nem sou tão organizada assim. Daí me lembrei de que esta é uma mania antiga. Quando eu era pequena, devia ter uns 5 anos, ficava horas organizando minhas coisas em pequenas malas que cabiam na mão. Aquilo era um ritual. Eu secretamente achava que tudo o que era importante para mim tinha de ser guardado de forma que fosse fácil ser carregado quando a casa pegasse fogo e eu precisasse fugir correndo. Eu não pensava "se" a casa pegasse fogo; eu tinha "certeza" de que pegaria fogo. A coisa era séria.
Agora elaboro tudo isso e penso: a mania de guardar é medo de perder. Não que eu seja muito ligada às coisas, mas a sensação de que meu chão pode se abrir de repente ou de que as paredes que me abraçam podem se esfarelar do dia para noite é um pensamento segundo que lateja de vez em quando. Claro que não sou neurótica e tudo isso fica lá no fundos - meu porão secreto que meu blog vai abrindo pouco a pouco.
Minhas caixinhas são lindas. Esta nova é uma mistura de caixa e mala, com chave e tudo. Dá pra guardar as poucas joias em divisões que separam os brincos e os colares, tudo em seu lugar. Adoro cada coisa em seu lugar, mas minhas ideias são tão embaralhadas e meu pensamento nem é tão ordenado assim... Nossa, sou uma contradição só.

domingo, 24 de julho de 2011

Medo do escuro

Até eu, que hoje me acho tão grande e forte, não escapei. Tinha medo de quando a luz do quarto era desligada e abruptamente todos os adultos da casa (só eram dois, meu pai e minha mãe) sumiam na escuridão. Meu irmão ainda não existia, e eu não tinha com quem dividir aquele medo enorme. Antes de gritar para que o primeiro adulto viesse ao meu socorro, eu me atemorizava com os bonecos do quarto que se agigantavam diante de mim.Como a gente esquece facilmente os medos de criança. Quantas vezes sou incapaz de compreender o medo da minha filha. No fundo eu acho que ela precisa ser mais forte e destemida do que eu fui. E até do que eu sou. Ohando assim para trás, vejo que tenho sido quase nada tolerante com os medos que já venci, mas que outros ainda não venceram.Venci? Será mesmo? Não sei. Eu não seria capaz de domir sem medo em um lugar escuro sem nenhum rosto amigo por perto. Deixa eu explicar melhor: estou tão acostumada a ter minhas filhas ao meu redor, cuidando do medo delas, que não tenho prestado muita atenção no que me daria medo hoje, isto é, se eu ainda teria medo do escuro em condições pouco simpáticas - uma fazenda no meio do nada, por exemplo.Ah, mas é tão pouco provável flagrar esta que vos escreve em uma fazenda e, além do mais, em uma fazenda no meio do nada... melhor pensar em outro cenário. Talvez eu esteja precisando fazer um inventário dos meus medos de agora e checar até que ponto sou grande e forte como penso. Que nada. A filha que tem medo do escuro, de apenas 5 anos, só não embarca em uma montanha-russa porque a mãe, no caso eu, medrosa, não permite.Sim, meu guardatório de confissões: nunca andei de montanha-russa de verdade, a não ser aquelas bem pequenas. Não tenho medo. Tenho pavor.

sábado, 16 de julho de 2011

Meu guardatório

Adorei esta palavra: guardatório. Vou logo dizendo que não é minha; roubei da Anne, minha filha de 5. Ela tem uma caixa de óculos que denominou de "meu guardatório" e põe ali os achados que supõe um dia precisar - coisas tão valiosas quanto uma rolha de vinho que ela catou no restaurante, uma presilha de cabelo descascada, um bonequinho que encontrou na brincadeira de caça ao tesouro no pátio de areia do colégio. O guardatório é quase um cofre de coisas perdidas e recuperadas.Não é só a Anne que tem um guardatório - eu também tenho! Só que meus guardados são palavras que eu guardo para não esquecer. Tenho memória fraca, confesso. O que ouço, e muitas vezes o que digo, pode voar com facilidade para fora de mim e eu nunca mais encontro nem o que ouvi nem o que eu disse. Por isso, tenho gostado tanto do facebook e agora deste meu Teapot; eis aqui meu guardatório que vos apresento e compartilho.Guardo meus pedaços de rotina, os casos, as possibilidades de histórias, meus engasgos, como já disse, e quem sabe até alguns segredos. Partilhar palavras é uma forma de guardá-las; no ouvido do outro, na emoção do amigo, fica ali o que se escreveu e o que se disse. Se eu esqueço, quem sabe alguém um dia vai lembrar? E se eu mesma esquecer, volto aqui e releio tudo.Meu guardatório é meu Teapot. Alguém está servido?